
Quando o CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) foi criado, em 1984, o termo “ONG” ainda não era utilizado. Naquele momento, a definição mais comum era a de uma associação sem fins lucrativos, já que ainda não havia clareza sobre como nomear esse tipo de atuação.
Foi apenas na década de 90 que as organizações não governamentais se consolidaram e passaram a ocupar um espaço mais definido. Com isso, surgiu também um novo discurso e a necessidade de diferenciar melhor os campos de atuação entre o governo e a sociedade civil. A grande questão era entender quem deveria assumir a responsabilidade pelos problemas sociais e até que ponto as ONGs poderiam ou não substituir o Estado em determinadas funções.
Enquanto essa discussão ainda estava em curso, um novo elemento passou a integrar esse cenário: as empresas socialmente responsáveis. Com isso, a complexidade aumentou. Já não se tratava apenas de uma divisão entre governo e sociedade civil, mas de três atores compartilhando o mesmo espaço e, muitas vezes, atuando sobre os mesmos problemas.
Esse encontro nem sempre foi harmonioso. Em muitos momentos, houve disputa por protagonismo, responsabilidades e reconhecimento. Os fracassos eram frequentemente terceirizados, enquanto os sucessos eram apropriados individualmente. A sensação era de que, em vez de cooperação, havia competição.
Com o tempo, e diante da dimensão dos problemas sociais, ambientais e humanos, tornou-se inevitável uma convivência mais colaborativa. Ainda assim, surgiu a necessidade de organizar conceitualmente esse cenário, dando origem à ideia dos chamados “setores”.
Passou-se então a falar em primeiro setor, responsável pelo público; segundo setor, ligado à iniciativa privada com responsabilidade social; e terceiro setor, formado por organizações privadas voltadas ao interesse público. Há até quem mencione um quarto setor, relacionado a práticas em que o público passa a servir interesses privados.
No entanto, essa tentativa de organização levanta uma questão importante: classificar os atores resolve, de fato, os problemas?
Apesar da multiplicação de conceitos, classificações e estruturas, a transformação social necessária continua não acontecendo. Os diferentes setores até desempenham, em alguma medida, seus papéis, mas isso não tem sido suficiente para garantir uma cidadania plena e inclusiva.
A população, que deveria ser o centro dessas ações, permanece muitas vezes como objeto, e não como sujeito das iniciativas. Enquanto isso, os problemas seguem sendo adiados, as responsabilidades são distribuídas de forma difusa e o presente se enche de discursos que pouco se traduzem em mudanças concretas.
Corre-se o risco de transformar toda essa dinâmica em um ritual vazio, burocrático e sem impacto real.
É nesse contexto que surge a proposta do “Setor Zero”. Diferente dos outros, ele não se define por instituições, mas por princípios. Trata-se de um setor que vem antes e acima de todos os demais, orientado exclusivamente pela ética e pela necessidade de cumprir funções sociais essenciais.
A lógica proposta é uma inversão importante de que não são os papéis institucionais que devem definir as ações, mas sim as necessidades sociais que devem orientar os papéis. Isso significa que combater a fome, erradicar o analfabetismo, enfrentar a violência, eliminar o trabalho escravo e proteger a natureza não podem depender de disputas institucionais ou definições burocráticas, são responsabilidades éticas inadiáveis.
No Setor Zero, o critério fundamental deixa de ser apenas a legalidade e passa a ser a ética. Não basta que algo esteja dentro das regras; é preciso que seja justo, digno e comprometido com o bem coletivo.
Tudo aquilo que fere esses princípios deve ser enfrentado e eliminado. A ética, nesse sentido, deixa de ser um valor abstrato e passa a ser um guia concreto para a ação social.
A proposta também rompe com a ideia de que a transformação social é responsabilidade exclusiva de governos, empresas ou organizações da sociedade civil. Ela passa a ser entendida como uma tarefa coletiva.
A ideia de que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” sintetisza bem esse pensamento. A transformação só acontece quando todos, independentemente do setor ao qual pertencem, assumem seu papel de forma consciente e comprometida.
É possível eleger alguns indicadores para comprovar a existência do Setor Zero. Por exemplo:
Esses exemplos mostram que o Setor Zero não é abstrato mas sim, mensurável.
O Setor Zero pode, à primeira vista, parecer uma utopia. No entanto, ele se apresenta como uma escolha possível e necessária. Colocar a ética no centro das decisões, priorizar as necessidades sociais e assumir uma responsabilidade coletiva são passos fundamentais para que a transformação social deixe de ser promessa e passe a ser realidade.
Talvez o que falte não seja mais organização, mais setores ou mais classificações, mas sim uma mudança de perspectiva. Uma mudança que permita, finalmente, que o “espetáculo” da transformação social aconteça de fato.
*Adaptação do texto SETOR ZERO A utopia possível. A ética necessária, de Tião Rocha.